Especial: Economia Compartilhada

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Grazieli Gotardo

A economia compartilhada é uma revolução na forma de fornecer e consumir serviços e produtos, baseada da inovação e na reputação. Os números desse modelo econômico ainda não são consolidados, mas avaliações de mercado de alguns de seus mais recentes representantes de projeção mundial dão uma noção: Whatsapp (US$ 100 bi); Uber (US$ 50 bi); Airbnb (US$ 20 bi). Empresas jovens, oriundas de indústrias não tradicionais, mas que estão desacomodando gigantes dos mercados de telecomunicações,
transporte e hospedagem.

Um modelo que tem em seu centro o “compartilhar” em detrimento do “ter”. Seria então a nova economia uma evolução do capitalismo ou um sinal de seu enfraquecimento? Para Cezar Taurion, CEO da Litteris Consulting, esse modelo é uma evolução que vem na esteira de três tendências: a transformação digital, com a capacidade computacional dobrando a cada ano; a urbanização acelerada, que possibilita às pessoas pensar em compartilhar coisas; e as mudanças climáticas e a escassez de recursos, assuntos que já estão na agenda do cidadão.

ROMPENDO RESERVAS DE MERCADO

Cezar_Taurion_arquivopessoal“E daí começa a se pensar: será que eu preciso ter? Será que não posso apenas usar?”, questiona Taurion. “Isso também é oriundo de uma mudança social, pois hoje nós compartilhamos nossas vidas e ideias nas redes sociais para pensar num novo modelo econômico, que seria a economia compartilhada. E com isso, começamos a pensar novos modelos de negócios que vão ao encontro das novas demandas.”

O economista Samy Dana, professor da Fundação Getúlio Vargas e comentarista da GloboNews, também vê o modelo como uma evolução. ”Estamos há algum tempo com um grau relativamente alto de compartilhamento na sociedade. E agora, tanto pelo avanço da
tecnologia quanto pelo agravamento da crise econômica, a economia compartilhada é um caminho que vejo como uma evolução, não só pela redução de custos que traz, mas para termos serviços e produtos melhores”, avalia.

Estar preparado para essa revolução e avaliar oportunidades é fundamental e inevitável. Reinaldo Normand é um empreendedor brasileiro com 20 anos de experiência na indústria de tecnologia. Já fundou seis empresas no Brasil, nos Estados Unidos e na China
e, desde 2006, mora no Vale do Silício (EUA), onde a cultura da inovação é a mola propulsora e a economia compartilhada já pode ser vivenciada de forma intensa. Para ele, agilidade é fundamental nesse momento.

“Executivos devem prever em quanto tempo a economia compartilhada canibalizará seu próprio negócio se nada for feito. Primeiro, eles devem entender que isso não é uma moda, é um novo modelo econômico facilitado pela tecnologia onipresente. Segundo, devem começar a fazer experimentos e investimentos para compreenderem como essa nova geração de empreendedores e consumidores pensa e funciona. Terceiro, devem agir rapidamente, enquando ainda têm recursos financeiros e estão no topo de seus negócios”,
alerta Normand, também consultor de startups e autor de dois livros, o mais recente, Innovation2, sobre 15 tendências tecnológicas que estão mudando o mundo. “A melhor maneira de combater novos concorrentes é prover serviços melhores do que os oferecidos por eles, simples assim”, reforça.

“Na economia compartilhada, a avaliação do cliente torna-se o principal indicador de performance do serviço, e quem ganha é o próprio consumidor”, teoriza Cassio Bobsin, CEO da Zenvia, empresa sediada em Porto Alegre e líder no mercado de mobilidade. Bobsin aposta nas parcerias para novas oportunidades na era da colaboração. Para ele, a economia compartilhada é nova fronteira na busca pela eficiência dos mercados e serviços. “A economia compartilhada vem transformando a forma como entendemos o conceito de ativo. E a TI tem papel fundamental, pois oferece um ambiente de confiança para reservas, pagamentos e reputação. Este movimento deve gerar uma série de oportunidades”, destaca.

A QUESTÃO DA REGULAÇÃO

samy_divulgacao_pA agilidade dos negócios na economia compartilhada e o poder de disrupção de mercado trazem a regulação desses novos serviços ao debate. O controle de qualidade fica com o consumidor, o que incomoda alguns setores tradicionais da economia. E a discussão sobre a regulação por parte do governo é uma barreira enfrentada por empresas como Uber e Airbnb.

Para Samy Dana, a questão da regulação é fundamental e traz mais competitividade ao mercado. “A Uber não é ilegal, porque transportar pessoas é uma atividade legal. E como a evolução é inevitável, precisamos de formas de regular para dar mais competitividade ao mercado. Essa é uma questão séria e que deve ser rápida”, afirma. Para o economista, a tentativa de proteção dos setores tradicionais é ineficaz. ”Todas as vezes
que algum país ou setor tentou se proteger de uma inovação e conseguiu, através do governo, foi um desastre para a população, pois fica tudo estagnado e não há inovação”, ressalta.

Nos Estados Unidos, as iniciativas de economia compartilhada já estão sendo reguladas localmente. ”Aqui há um consenso de que o benefício econômico do modelo destas empresas é muito superior aos malefícios. Só o Uber gerará 1 milhão de novos empregos em 2015 no mundo. Isso é mais do que toda a indústria automobilística americana emprega hoje”, estima Normand. “A batalha por este novo modelo já foi ganha, é inútil resistir ao progresso.”

OPORTUNIDADE PARA TODOS

Em um cenário de inversão do modelo de negócios praticado nos últimos anos, Taurion vê grandes oportunidades para pequenas e médias empresas. “As organizações tradicionais
não se prepararam e são lentas na reação, porque têm que mudar o modelo de negócio. Já as empresas menores podem ser ágeis nessa mudança, e, hoje, a mesma tecnologia que está disponível para a grande está também para a pequena, com custos muito semelhantes
ou iguais”, explica.

Normand observa uma previsível resistência às mudanças por parte de grandes marcas. “É muito difícil as empresas tradicionais mudarem, mas para adaptarem-se seria inteligente
que investissem ou comprassem startups, que já nascem neste novo modelo e com outra cabeça”, indica.

NÚMEROS DA ECONOMIA COMPARTILHADA

Ainda sem números consolidados, as cifras geradas atualmente pela economia compartilhada divergem por serem mais locais do que mundiais. A consultoria PricewaterhouseCoopers estima que, em 2015, a receita anual global do setor será de US$ 15 bilhões. E projeta que em 2025 saltará para US$ 335 bilhões. Do ponto de vista do consumidor, pesquisa da PwC feita nos Estados Unidos no final de 2014 mostrou que 44% das pessoas se dizem familiarizadas com a economia compartilhada. Já no Brasil, a porcentagem é de 20%, segundo estudo da Market Analysis.

Veja no quadro abaixo o que pensam as pessoas familiarizadas com a economia compartilhada nos EUA sobre seus benefícios, conforme relatório da PwC.

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SÃO PAULO FAZ MAPEAMENTO INÉDITO

GUiaSP pg7“Enquanto você lê este texto boa parte dos 3 bilhões de internautas do planeta está interagindo. Muitos deles por meio de uns poucos cliques em seus smartphones. A economia compartilhada veio para ficar.” Este é um trecho do Guia São Paulo – Cidade
Colaborativa (cidadecolaborativa.org) lançado em setembro com 100 iniciativas da capital paulista, organizadas em 10 categorias: cultura, mobilidade, consumo, serviços, trabalho e coworking, educação, meio ambiente, alimentação, moradia e ONGs e poder público.

“Acreditamos que, em um futuro próximo, quem não surfar na onda do compartilhamento estará ultrapassado”, diz Alexandre Lafer Frankel, idealizador da publicação que mapeou e
apresenta os trabalhos existentes no país em uma só plataforma.

O guia foi desenvolvido a partir de uma análise em redes sociais para identificar projetos com maior número de seguidores. O resultado escolheu projetos que somam 15 milhões de manifestações positivas, o que, segundo os organizadores, prova que os brasileiros aderiram, em algum grau, à economia colaborativa. O guia foi planejado para crescer a partir da contribuição de outros projetos. O conteúdo digital pode ser acessado e baixado para impressão gratuitamente. Os números do portal são atualizados a cada seis meses.

APP INTEGRA TRANSPORTE COLETIVO EM PORTO ALEGRE

WiGo_equipe Um grupo de jovens entre 21 e 25 anos desenvolveu o Wigo, um aplicativo de transporte público que auxilia os porto alegrenses na escolha das melhores rotas. O app engloba todos os meios de transporte coletivo (ônibus, lotação, aeromóvel, trem e catamarã), utilizando informações fornecidas pelos próprios usuários (crowdsourcing). O Wigo surgiu em 2012, a partir da necessidade dos desenvolvedores de acessar informação para se locomover na cidade.

Fwigo_home_Screen1 (1)lavio Palma Pereira, sócio e idealizador do app, conta que o Wigo já nasceu dentro do conceito de economia compartilhada, com a ideia de utilizar a força da base de usuários. “Pensamos que esse é o futuro dos negócios. Em que novas soluções nascerão em todos os ramos para melhor a qualidade de vida de todos. Agora que vivemos na era da informação, é possível medir e acessar facilmente informações, gerando, consequentemente, soluções mais inteligentes e sustentáveis”, afirma.

Segundo Flávio, foram investidos no negócio apenas os custos de desenvolvimento e o tempo dos sócios. No momento, o foco do Wigo é o aumento da base de usuários, por isso ainda não foi implementado um modelo de monetização, mas a proposta já está modelada e validada pela empresa, que é uma das startups incubadas no Tecnopuc, Parque Científico e Tecnológico da PUCRS.